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17 Maio 2006

Guiné 63/74 - DCCLXV: Foi em plena guerra colonial que nasci de novo (Padre Mário de Oliveira 

Post nº 765 (DCCLXV)

Guiné > Mansoa > 9 de Setembro de 1974 > O Furriel de Operações Especiais Ribeiro, da CCS do BCAÇ 4612, recolhe a bandeira verde-rubra, na presença de representantes do PAIGC (incluindo a viúva de Amílcar Cabral) e de autoridades militares do CTIG. Seis anos anos, o Alf Mil Capelão Oliveira fazia uma curta passagem por Mansoa, antes de ser expulso do exército, em Março de 1968.


Foto: © Eduardo Magalhães Ribeiro (2005)




Texto do Mário de Oliveira, em resposta a um convite meu para integrar a nossa tertúlia... E, a propósito, seria escusado lembrar que na nossa tertúlia ninguém censura ninguém... Podemos (e devemos, quando for caso disso) discordar, saudavelmente, uns dos outros, mas por princípio não fazemos juízos de valor, julgamentos, públicos (e sumários), e muito menos insultos... por que isso iria coortar a nossa capacidade de reconstruir o puzzle da nossa memória (individual e colectiva) da guerra, estancar os nossos fluxos, perturbar os nossos sentimentos de pertença, pôr em causa as comunalidades das nossas vivências... Tal não significa ignorar, escamotear ou esconder as diferenças que existiram, existem e existirão entre cada de um nós!...

Em suma, somos, ou esforçamos por ser, a mais plural das casernas de todas as tropas do mundo... Aqui, a haver uma regra de proibição, é a seguinte: só é proibido proibir... E o tratamento por tu, meu caro Mário, é fortemente desejável ou tendencialmente recomendável: de facto, não dá grande jeito tratar um camarada por você... Dito isto, sê bem vindo, camarada! (LG)


Meu caro Luís:

Aqui estou a responder à sua provocação. Com alegria e paz.

Foi na Guiné que os meus olhos mais se abriram. E que iniciei o meu êxodo para a Liberdade e para a Dignidade. Quem alguma vez vai a África como ser humano, nunca mais será a mesma pessoa. E que dizer então de quem foi a África para participar numa guerra contra o seu Povo?

Tomo a liberdade de partilhar com os camaradas que visitam este site e nele participam com os seus pontos de vista, o texto que escrevi sobre uma aula que, há poucos anos, fui convidado a dar sobre a guerra colonial. O texto já está publicado no meu livro Ouviste o que foi dito aos antigos. Eu, porém, digo-vos, editado pela Campo das Letras, Porto [2004]. Com ele, partilho também o meu afecto e o abraço com todos os camaradas.

Vosso, sempre

Mário


Uma aula sobre a guerra colonial que foi um escândalo


Foi um escândalo a aula que, numa certa noite, fui partilhar sobre a guerra colonial, na Universidade Popular do Porto. Convidado expressamente pelo responsável do curso, o camarada de profissão, Jorge Ribeiro, do "JN", em vez de me limitar a fazer uma viagem ao passado, tentei trazer a guerra colonial para os nossos dias.

As perguntas que formulei, as questões que levantei, rasgaram inevitável debate. Que poderia ter sido mais saudável, se os participantes no curso, mulheres e homens, mais homens do que mulheres, tivessem tido espírito de abertura e de tolerância. Assim não aconteceu. E houve quem se escandalizasse com as minhas posições e até estranhasse que eu, depois de dizer o que disse, continue a assumir-me publicamente como padre católico da Igreja que está no Porto. Felizmente, ninguém saiu da sala, enquanto partilhei os meus pontos de vista, previamente escritos. Mas não faltou quem, já em pleno debate, tivesse dito que teve vontade de o fazer. Um dos presentes chegou mesmo a dizer que, embora não concordasse com os meus pontos de vista sobre o tema, pelo menos admirava a minha coragem física e moral.

É o texto integral dessa polémica aula, que aqui apresento de seguida. Leiam e reflictam. Discutam. Até para ver se todos aqueles que, um dia, fizeram a guerra colonial, ousam, agora, olhar para ela de frente, a fim de se desencadear no país um generalizado processo de consciencialização e de libertação do nosso povo. De contrário, continuaremos prisioneiros de medos e de mitos que nos levam a obediências acríticas e irracionais, como aquela que, com o apoio da senhora de Fátima e da hierarquia católica, a generalidade do país protagonizou, não só durante os 13 anos que a guerra colonial durou, mas também durante os quase 50 anos do regime ditatorial e fascista de Salazar!



Felizmente, houve o 25 de Abril de 1974 que pôs fim a 13 anos de guerra colonial. E nos reconciliou connosco próprios e com os povos do mundo, particularmente, com os povos africanos de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Mas ainda está para aparecer quem explique, suficientemente, como é que nós, um povo tendencialmente acolhedor e fraterno, ecuménico e tolerante, consentimos que nos envolvessem numa guerra colonial, em três frentes, para mais, contra povos que nunca nos tinham feito mal, que nunca nos provocaram e a quem nós, até, durante cerca de 500 anos, impunemente colonizámos, explorámos, infantilizámos, oprimimos. Como é que, depois de tudo isto, ainda nos metemos numa guerra contra eles?

Seria salutar tentarmos, todos estes anos depois e no fecundo clima da liberdade que Abril nos proporcionou, reflectir este problema, a fim de tirarmos alguma lição da guerra, em ordem a tornarmo-nos um povo mais amadurecido, mais autónomo, mais liberto, por isso, menos sujeito a ser instrumentalizado por minorias espertalhonas que sempre as há em todos os povos. E às quais convém, activamente, resistir, sempre que os interesses delas não são os das maiorias – se calhar, nunca são! – nem são os do povo de que essas minorias fazem parte.

Durante 13 longos anos, entre 1961 e 1974, aceitámos, sem revolta de maior, que os nossos filhos, na força da vida, fossem para África, lá longe, noutro continente, de armas na mão, para fazer a guerra a povos que não conhecíamos e que apenas reclamavam o direito à autonomia e independência!

Em lugar de acolhermos e satisfazermos esta legítima aspiração – outros povos, antes de nós, já o tinham feito! – aceitámos que os nossos filhos deixassem a casa, a família, interrompessem os seus sonhos e fossem combater esses povos.

Muitos encontraram lá a morte antes de tempo. Muitos outros vieram de lá gravemente feridos no corpo e na alma. E, ainda hoje, muitos milhares deles, arrastam-se por aí sobrecarregados com o estresse da guerra, sem que o Estado português, às ordens de quem todos eles se alistaram para esse feito de lesa-humanidade, se mostre, hoje, razoavelmente sensível e disposto a assumir as suas responsabilidades até ao fim.

Como se explica que tenhamos embarcado nessa aventura? Como se explica que não nos tivéssemos revoltado e resistido? Como se explica que não nos tivéssemos erguido, como um só homem, uma só mulher, contra quem, sem nos consultar, ousou dar-nos uma ordem – Para Angola, rapidamente e em força ? Como obedecemos tão cegamente, tão ordeiramente? Por que não nos opusemos? Por que não fizemos, colectivamente, o famoso manguito, tão característico do chamado Zé Povinho português? Por que nos submetemos e logo nos dispusemos a entregar os nossos filhos, os nossos maridos, os nossos pais, a esse Moloch devorador de sangue humano e de riqueza, que é a guerra, toda a guerra?

E por que é que, todos estes anos depois, continuamos tão conformados com as trágicas consequências da guerra? Por que não fazemos parar o país, para exigirmos que, concretamente, as dezenas de milhar de vítimas do estresse da guerra colonial sejam tratados como gente, sejam tratados com equidade e justiça? Por que consentimos, tão facilmente, que o Estado português continue a ser um estado prepotente, sobranceiro, irresponsável? Por que permitimos que ele nos trate com tanta sobranceria e tanto desprezo?

Não esperais, certamente, que vos traga respostas acabadas para todas estas perguntas, para todas estas questões. De resto, nem é esse o tema desta nossa conversa, esta noite.

Ainda assim, gostaria de partilhar convosco alguma luz e projectá-la sobre estas questões que levantei. É que, também eu estive na guerra colonial. Pouco tempo, é certo, mas estive. Apenas quatro meses, no termo dos quais, fui expulso, sem qualquer julgamento prévio.

Estive na guerra colonial, já ela estava em marcha, em três frentes. Estive entre Novembro de 1967 e Março de 1968. Por isso, também eu tenho o dever de reflectir estes problemas. Não só levantar estas interrogações, mas contribuir para se encontrar possíveis respostas.

Acordei para a Guerra Colonial, quando, em 1967, fui chamado ao Paço episcopal do Porto - tinha então 30 anos de idade e cinco anos de padre, na Diocese, e era professor de Religião e Moral no Liceu D. Manuel II - para ser informado, de viva voz, pelo Bispo-Administrador Apostólico, D. Florentino de Andrade e Silva, de que o meu nome já tinha sido enviado para Lisboa, pelo que, em breve, iria ser chamado a frequentar um curso de capelães militares, na respectiva Academia Militar!

Não me perguntou o Bispo se eu estava disposto a ir, se tinha alguma coisa a objectar. Não me consultou. Apenas me informou e deu-me a ordem de marcha. Como se a Igreja fosse um enorme quartel, onde a generalidade dos seus membros apenas obedece, cumpre ordens dos superiores, auto-apresentados como infalíveis, como donos da verdade, como rostos visíveis de Deus, senão mesmo, o próprio Deus na terra.

A verdade é que eu, nessa altura, embora ficasse mudo de espanto e como que apunhalado no peito, não ousei sequer contradizer o Bispo. E lá fui para a Academia Militar, com mais umas dezenas de outros padres do país, pelos vistos, todos mais ou menos incómodos, por razões as mais diversas, nas respectivas dioceses.

Ao fim de cinco semanas de curso intensivo, fui dado como apto e parti para a Guiné-Bissau, a fim de me integrar, como alferes capelão, no Batalhão 1912, que já operava militarmente em Mansoa, a 60 kms de Bissau.

Hoje, também eu me pergunto: Como é que isto foi possível? Como é que eu nem sequer me lembrei de formular objecção de consciência? Como é que fui logo obedecer a semelhante ordem?

Aconteceu comigo o que aconteceu com a generalidade do país. A mim, o Bispo mandou e eu obedeci. Aos outros portugueses, o Estado/Governo mandou e eles obedeceram. Salvas as muitas e honrosas excepções, de quantos fugiram, desertaram, deixaram o país, por muitos anos, para não terem de ir à guerra. Alguns, por medo ou covardia, a maior parte por convicção. Estavam mais politizados e não suportaram ser cúmplices do crime de lesa-humanidade que é toda a guerra colonial.

Se pensarmos bem, estará aqui uma razão, uma forte razão que ajuda a entender por que foi possível a guerra colonial.

Durante séculos, praticamente, os oitos séculos da nossa História, desde 1143 até aos nossos dias, mais propriamente, até ao 25 de Abril de 1974, fomos educados para obedecer. Ou obedecer, ou mandar. Quem não fazia parte das minorias que mandavam, integrava as maiorias que obedeciam, que tinham de obedecer.

Fomos educados para obedecer. Aos superiores. Legítimos superiores, dizia-se. Só que, lá, onde há superiores, tem de haver inferiores. Lá, onde há hierarquia, há fatalmente súbditos: Há opressão. Há subserviência. Há infantilismo. Há menoridade. Há desigualdade. Como tal, não é possível a fraternidade/sororidade.

Deveríamos ter sido educados para a liberdade, para crescer como pessoas, para a responsabilidade, e educaram-nos para a obediência. Deveríamos ser gente adulta, autónoma, responsável, habituada a enfrentar e a responder aos problemas de que é feita a vida, mas fizeram de nós súbditos, pequeninos, infantes. Um Portugal de pequeninos. Por isso, marionetes. Executantes da vontade de outrém. Anti-cidadãos!

Fomos, desde nascença, como país, um povo dominado pelo clero/padres e pelos nobres/burgueses. Nascemos à sombra da cruz e da espada, do trono e do altar. Se não nos submetíamos pela pregação terrorista, pela catequese ameaçadora do clero, pelo medo de Deus e do inferno, submetíamo-nos pelo medo da espada.

A República, em 1910, cortou, interrompeu este fado! Pôs fim a este ciclo de opressão de oito séculos. Mas veio logo a seguir a senhora de Fátima (1917) e, anos depois, o Estado Novo. Ficamos pior do que antes. Sob o domínio de Salazar e do cardeal Cerejeira. Da Pide e dos senhores abades.

É neste longo interregno, nesta longa noite do fascismo, que acontece a guerra colonial. Quando o povo ainda não era povo. Quando a liberdade ainda não tinha passado por aqui e era coisa proibida. Quando ser homem/ser mulher, ser cidadão, era crime. Quando só a subserviência e a obediência tinham voz e vez.

Abril de 1974 foi, por isso, o dia do nosso Natal e da nossa Páscoa, como povo. Nascemos e ressuscitamos para a liberdade e para a festa.

Nesse dia, como não podia deixar de ser, a guerra colonial acabou! Um povo que se liberta para a liberdade é incapaz de se alistar e de fazer alistar os seus filhos para a guerra contra povos que apenas queriam a autonomia e a independência.

Nesse dia, em vez de armas e balas, corremos a distribuir cravos vermelhos. Em vez de guerra, fizemos paz. Em vez de semearmos morte e mais morte com os nossos braços e as nossas mãos, abraçamos os povos africanos e descobrimo-nos irmãos.

Entretanto, hoje, todos estes anos depois de Abril de 1974, que fizemos da liberdade conquistada? Somos capazes de gritar, Guerra nunca mais, paz sempre? Guerra nunca mais, Direitos Humanos sempre? Ou voltamos a ter saudades do passado e medo do futuro? Ousamos ser cada vez mais responsáveis, autónomos, senhores dos nossos destinos, ou suspiramos pelo regresso de Poderes autoritários?

Como se explica, então, que, depois de Abril 74, continuemos a alimentar seitas/novas religiões/novas igrejas? Como se explica que continuemos a sustentar uma Igreja, como aquela de que sou membro, a Igreja católica romana, com tantos privilégios? Como se explica que, concretamente, continuemos a tolerar a existência duma Concordata entre a Igreja católica e o Estado português, que vem desde 1940, desde o fascismo? Como se explica que continuemos a alimentar Fátima e a sua senhora vampiresca que, com o seu paleio moralista nos leva a carteira e, sobretudo, a dignidade, a ponto de nos fazer andar de rastos no seu santuário? Como se explica que continuemos a dar do nosso dinheiro para ajudar a erguer basílicas de seis milhões de contos, onde, depois, o clero - certo clero - nos oprime e ameaça, quando nem sequer temos, a maior parte de nós, casas decentes e espaçosas para viver?

Há algumas dezenas de anos, em plena noite do fascismo, levaram-nos a fazer uma guerra colonial em três frentes de África. Felizmente, aconteceu Abril de 1974 e, com ele, a liberdade e o fim dessa maldita guerra. Foi um gigantesco passo em frente que demos, como povo. Porventura, o maior da nossa história de oito séculos.

Do que se trata, agora, é de seguir em frente. Nunca mais voltar atrás. Como diz a canção: "Somos um povo que cerra fileiras / parte à conquista do pão e da paz / somos livres, somos livres / não voltaremos atrás".

Contudo, as minorias espertalhonas não desapareceram. Nem desistiram. Hoje, estão de volta. Com falinhas democráticas.

Amolecer no combate pela nossa autonomia e independência, é morrer. Até porque com senhoras de Fátima (a original é uma senhora cega, surda e muda, que se reproduz por uma espécie de clonagem e, por isso, consegue aparecer como uma maldição geradora de medo em todas as igrejas paroquiais do nosso país e em muitas casas de família, mesmo do estrangeiro), não vamos a lado nenhum, ou vamos, mas para o abismo. Lá diz o ditado popular: Fia-te na virgem e não corras, verás o tombo que levas.

Por mim, foi em plena guerra colonial que nasci de novo, do Alto, do Espírito. O meu 25 de Abril aconteceu em Mansoa, exactamente, no dia 1 de Janeiro de 1968. Abriram-se-me os olhos (da consciência). Percebi a engrenagem em que estava metido. E da qual até era funcionário privilegiado.

Recusei o prato de lentilhas que me ofereciam. Escolhi a liberdade. A responsabilidade. A cidadania. Escolhi ser homem, em lugar de funcionário eclesiástico.

A guerra e os homens da guerra não me perdoaram e expulsaram-me, a toda a pressa, sem qualquer julgamento prévio. E, pela boca de um deles, o então bispo castrense, D. António dos Reis Rodrigues, ditaram a sentença: "padre irrecuperável".

Mal sabiam eles que esse foi o primeiro dia do resto da minha vida!

Comments:
Olá Senhor Luís Graça, sou a Isabela Lage, resido no Brasil, no estado de Minas Gerais, e estou a tirra o curso de Jornalismo.Venho por meio desta, lhe pedir permissão, pra utilizar alguns artigos que o senhor escreveu, dando todod os créditos ao senhor, e após a conclusão do estudo científico, lhe encaminhando o mesmo, via emal.
Estou falando da re-construção da História por meio do Jornalismo, da importância do papel do jornalismo em tempos atuais, onde as pessoas buscam a verdade e só encontram mentiras..., grandes abismos em toda a Hitória, principalmente em todo o continente Africano.Tenho como objeto de estudo,o livro de crônicas - "O País do Queixa Andar", de Mia Couto. Faço um estudo histórico-antropológico.
O meu email é isabelalima@hotmail.com
Aguardo uma resposta do senhor, desde já gostaria de lhe agradecer. Faço parte do Grupo do msn, Lourenço Marques/ Maputo Moçambique, e foi lá que tive acesso ao senhor, que cheguei até o seu blog.
Obrigada.
Abraço, Isabela Lage.
 
Também estive em Mansoa (Janeiro de 1971-Janeiro de 1973) e a visualização da foto que ilustra este post não pode deixar de me comover. Ainda por cima servindo de suporte a um texto (magnífico) do padre Mário, por quem tenho grande apreço.
É a primeira vez que passo por aqui. Irei continuar.
Um abraço.
 
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